Quem sou eu
Xícaras de café
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Xícaras de café
Sabe... esses dias (hoje) vi na novela das oito (que começa ás nove) a menina lá que fugira e ficou grávida... bem, fiquei pensando... nós jovens somos muito louquinhos, pelo menos eu sei que eu sou. Posso parecer a quietinha, a santinha, mas... bem, até as verdadeiras santinhas, coisa que eu era há poucos anos atrás, qualquer coisa mais assim que surge nós ligamos os radares e enlouquecemos.
Primeiro foi o bate-papo da UOL, aquela merda que até nas salas de sexo não se fala tanto do rala e rola quanto no de adolescentes... péssimo isso. Devia ser proibido, mas isso que torna as coisas mais gostosas de se fazer. Sarrar aproveitando um momentinho dos pais longe, receber o cafajeste enquanto os pais estão fora, são exemplos de coisas proibidas porém gostosas que tive o (des)prazer de fazer... São esses momentos, são frações de segundo e graus centígrados a mais que nos fodem (literalmente) pelo resto da vida.
Ao menos que se tenha o mínimo de bom senso ou então um bocado de medo.
Fui uma pirralha medrosa, uma adolescente medrosa. Na minha época mais subtudo, mais underground, me deu muita vontade de fazer todas as merdas do mundo, mas por medo, não fiz nem um por cento do que pensei fazer. E agradeço a esse medo, porque quando a gente faz merda, quem faz a merda com a gente simplesmente some, e a gente fica sozinho, pagando o pato sozinho. Isso é regra. E pra achar uma exceção disso... vai sonhando...
Tou falando no sentido da mocinha fazer besteira por causa do garanhão, e o peste dar um pé na bunda da demente... claro! A mocinha vê no homem dela a fortaleza, a máxima proteção, e quando o cara some, geralmente a bestinha fica lá, ao leo, à mira dos fuzis, canhões e dedos certeiros.
Isso tudo por que já fui alvo de muitos dedos, tudo por que menti pra mainha dizendo que ia com o namoradinho (de merda) pra uma festinha do colégio, pra ir no shopping tomar capuccino... ora merda, eu devia era ter ido num motel, dar o cuzinho!
A desconfiança era a mesma e pronto...
Postado por PollyQueiroz às 17:50 0 comentários
O mal de não saber nadar
sábado, 16 de agosto de 2008
18h. Tirou o último cigarro e o isqueiro do bolso. Acendeu. Tragou. Soltou toda a fumaça a tossir. Esperava ele. Era a hora certa.Ernesto maquinava cada ação aflito. Viu o outro dobrar a esquina. Correu em zigue-zague entre os carros. Engarrafamento. Deu de cara com ele. Gritou:
- Te mato, ricardinho de merda!
Ricardo ouviu o grito mesmo estando com os fones, e reconheceu aquela voz quase engasgada. Virou-se para ver o perigo se aproximar, temendo que o louco estivesse armado. Resolveu sair da Rosa e Silva, pegando a Bandeira Filho a passos largos, rápidos, tão grandes quanto as próprias pernas e a própria altura, finalmente valera a alcunha de Chita nos tempos de colégio, as poças por todo cantos e bueiros retornando maré cheia, chegando na Agamenon, correndo ao longo da via... Precisava chegar logo na João de Barros - lá teria abrigo e proteção - pensava enquanto esbracejava a polícia por ter removido a viatura da Aluízio. Olhou para a Agamenon, inteiramente engarrafada, travada, inerte...nervosa.
Ernesto atrás. Desarmado porém furioso. A chuva grossa. Ele ensopado. Rua ensopada. Ele odiava água.
Ricardo porém não se incomodava, até gostava: era um alívio naquela maratona forçada. Resolveu atravessar a avenida, ignorando acessos, pistas laterais e quaisquer outras coisas, até mesmo ignorou a ponte logo à frente: Antepenúltimo, penúltimo, último passo e o salto.
Ricardo não sentia mais nada, apenas a chuva e seu corpo molhado, seu corpo em posição fetal, ao seu redor, apenas o ar, e as gotinhas da chuva, transe que se acabou num duro encontro com a grama e a lama do outro lado, e sorrindo calmamente apenas ouviu um barulho de algo caindo n'água e um grito revoltado:
- Merda!!!
Postado por PollyQueiroz às 16:03 3 comentários
A última ciranda
domingo, 10 de agosto de 2008
Era mais uma noite daquelas férias , nem lembro mais se era final de 99 ou já início de 2000, mas eu estava sem sono e embolando na cama, na mesma cama que estavam meus pais, e eu estava lá pelo simples medo de ter pesadelo.
Pedi a Paulo, meu pai que me cantasse uma canção qualquer de ninar e que me fizesse cafunés, ele ali era o único que tinha paciência para essas coisas e minha mãe, Cícera, já estava em sono profundo.
Afundando aquela mão senil nos meus cachos, cantava baixinho:
Eu estava na beira da praia
Ouvindo as pancadas
Das águas do mar
Essa ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na Ilha
De Itamaracá
Eu estava sem saber da vida
A manhã perdida
Na beira do mar
Eu estava na beira e não via
Que o mar prometia
Morrer, deslindar
Depois veio aquela menina
E meu corpo queria
Crescer, navegar
Essa manhã de dor, essa alegria
Essa vontade nova em frente ao mar
Essa primeira esperança comovida
De ter de, de ter de atravessar
Essa janela aberta, essa varanda
Essa manhã desesperada e branda
Essa ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na ilha
De Itamaracá
Até eu adormecer, abraçada a ele.
Naquela noite não tive sonhos, mas em pleno dia tive um pesadelo que para meu desespero era real. Nove horas e mais um tanto da manhã de um dia qualquer, que cuja data não lembro nem faço questão de lembrar, fui acordada por uma histeria infernal. Gritos da minha mãe, do meu pai e do rapazinho que trabalha até hoje conosco. Com o coração aos pulos corri para o quarto de onde vinha o barulho , no quarto onde se pintavam as placas, enfim, um negócio ridículo de se explicar e do qual eu sentia infinita vergonha, pois nos impedia de ter uma casa bonita e arrumada como a dos meus poucos coleguinhas. O cenário era repugnante: tinta sintética vermelha respingada pelo quarto que fedia, Dudu segurando minha mãe que de tão enfurecida parecia estar cega, e meu pai calado num canto, parecia chorar.
Ninguém queria falar comigo, nem ao menos olhar para mim. Ninguém queria me dizer o que havia acontecido, todos se entreolhavam. Talvez minha mãe me tinha dito que levara um tapa no rosto. Se disse ou não, não lembro. Mas lembro claramente da marca de mão no rosto dela.
Mainha não só estava com o rosto ferido. Estava com o orgulho ferido.E para meu desespero, e desespero maior do meu pai, ela decidiu que meu pai ia embora daquela casa, e tirou nós dois do caminho dela, empurrando-nos, indo em direção ao quarto para tirar as roupas dele, e colocar numa mala qualquer.
Não digo que minha mãe era a vilã da historia, tampouco meu pai. As situações que se preparam para nós são as verdadeiras malvadas. Mas naquela hora minha mãe conseguiu ser ruim: meu pai, um velho quase esclerosado, diabético e falido, precisava da gente. Ela não quis saber, levou a mala até a sala e ligou para Edvaldo, genro dele, para que fosse buscá-lo.
Eu não chorava, a única coisa que eu sentia era fome e sede, pois até aquela hora não havia comido até aquela hora, umas três da tarde. Fugi até a casa da vizinha, onde eu brincava com as filhas dela, minhas amiguinhas, e me deram cereal. Foi a primeira vez que eu havia comido aquilo, e com a tigelinha descartável na mão, fui até o portão. Só deu tempo para eu ver ele no carro, e Divo acenando para mim.
Painho não acenava, ele não me viu... tava quase cego por causa da catarata nos dois olhos.
Postado por PollyQueiroz às 09:17 0 comentários
Ceres e o rato.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Ela havia escalado toda a muralha externa do imenso castelo, ensangüentada, uma flecha cravada em seu ombro esquerdo e toda a dor do mundo. Entrava enfim no salão principal.
Escuro, tudo muito escuro. A fraca luz do sol apenas revelava uns dois degraus duma escada, o tapete bordô mofado, a madeira manchada , cheiro insuportável. Ceres sentia que nenhum ser humano entrou alí por anos.
E ela estava certa. Do nada aparece um rato, não um rato de tamanho normal, mas um bem grande. Não era uma ratazana, o bicho era grande demais. Na verdade ele era do tamanho duma criança de uns seis anos, fedia e tinha poucos pelos amarelados fracassados na missão ridícula de cobrir a pele manchada, esbranquiçada como a de um velho leproso.
Ao olhar nos olhos do rato, Ceres sentiu o olhar talvez humano do asqueroso, e apontou sua bastarda para o focinho torto do roedor.
- Xô - monossilabicamente tentou afugentá-lo.
- Calma, não mordo - desculpou-se o rato, para total espanto da garota - há séculos e séculos mofo aqui à espera de alguém para me ouvir, alguém que eu possa passar minha herança para poder ir em paz.
A garota tentou falar, depois resolveu continuar calada, para que ele se continuasse se explicando, se explicando, explicando , explicando, explicando...
- Tá vendo esse tantinho de escada? - perguntou o ser asqueroso, com um ar teatral, e estalando os tocos de dedos, fez as luzes se acenderem, revelando um belo porém acabado salão - isso tudo era lindo, jovem tola, mas tudo acabou e sobrou isto que vês.
O rato não parava de falar e falar, e aos poucos foi-se revelando uma criatura amigável, e Ceres não se conteve e perguntou:
- Você já foi humano, Sr. Rato?
O rato subiu as escadas emboloradas e na sacada abriu os braços e gritou:
- Releia o texto, meu amor! Releia e releia e releia por favor... assim você verá quem sou! - e continuou a falar até que Ceres dormisse em algum lugar do recinto...
Postado por PollyQueiroz às 17:53 1 comentários
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